Perdão para o imperdoável: parte 1


Se houvesse apenas uma pessoa com razões para desejar a segunda vinda de Cristo, essa seria o pastor Isaac Ndwaniye. Ele perdeu toda a família: esposa e nove filhos, pais, três irmãs, o irmão e o cunhado, mortos durante o genocídio em Ruanda. Apesar disso, nunca pensou em vingança. Ao contrário, ele demonstrou perdão e se apegou à promessa da vinda de Cristo a fim de reencontrar seus entes queridos.

Na história de hoje e na do próximo sábado, conheceremos os dias sombrios do genocídio em Ruanda e suas consequências.

Os ruandeses viviam unidos e em paz. Mas, em 1994, tudo mudou. O pastor Isaac, por exemplo, ficou espantado ao testemunhar vizinhos se voltarem contra sua família e assassiná-la. Naquela época, ele atuava como diretor de Publicações no Sul de Ruanda. O escritório, a escola, as casas dos obreiros e o Hospital Mugonero estavam localizados no mesmo complexo missionário na região conhecida como Kibuye.

Em 6 de abril de 1994, ele participava de uma reunião da União Missão Ruanda, em Kigali. Naquela noite, o avião em que estava o presidente de Ruanda foi atingindo, causando sua morte. O genocídio começou. No dia seguinte, um funcionário do Hospital Mugonero telefonou para o pastor Isaac, informando-o de que seu filho de 14 anos, Paul, havia sido assassinado, e que a esposa e os outros filhos tinham fugido para igreja, em busca de proteção.

Muitas pessoas, incluindo pastores, familiares e irmãos da igreja se refugiaram principalmente no templo, porque acreditavam que ali estariam seguros.

Chegada dos assassinos

No sábado, 16 de abril, os assassinos chegaram ao complexo missionário levados pelo próprio presidente da Missão e seu filho – médico e diretor do hospital.

O pastor Isaac ficou abismado. Seu pai, também pastor, havia trabalhado com aquele homem! Ele o conhecia desde a infância e era seu colega de ministério. Mal podia acreditar que um servo de Deus como ele havia se corrompido tanto!

O que mais o entristeceu foi que os pastores abrigados na igreja, com os respectivos familiares, escreveram uma carta ao presidente da Missão com a seguinte mensagem: “Sabemos que eles virão para nos matar. Por favor, ajudem-nos a conseguir um barco para que possamos chegar até o Congo e sejamos salvos.” A carta foi levada por um soldado que protegia a igreja, porque eles não podiam sair.

Infelizmente, o presidente, que deveria cuidar dos que estavam no campo missionário, respondeu que, naquele momento, nem Deus poderia ajudá-los.

Pessoas de todas as partes do país chegaram para matá-los. Algumas pertenciam à própria igreja adventista. Chegaram armadas com granadas, machados, facas, qualquer coisa que pudesse tirar a vida.

Invasão à igreja

Os que deveriam ser mortos estavam no culto. Um pastor estava pregando. O primeiro tiro o alvejou e, em seguida, os membros da congregação começaram a ser mortos. A esposa e os filhos do pastor Isaac correram para a casa do presidente pedindo ajuda, mas ele os expulsou. Outros correram para o hospital, tentando escapar, mas foram capturados por pessoas que os esperavam com machados. Os assassinatos dentro do complexo continuaram por vários dias. Dia e noite, os assassinos procuravam pessoas que possivelmente haviam escapado. Também foram utilizados cães farejadores para procurá-los no mato.

“Algo que me fortalece é saber que minha família, os outros pastores e famílias da igreja passaram seus últimos dias estudando a Bíblia. Foi um momento de reconsagração. Eles oraram, pediram perdão e estudaram a Bíblia. Isso me dá forças para continuar a viver, porque sei que um dia os verei novamente. Não acuso a Deus de coisa nenhuma. Sei que eles estão dormindo e, um dia, acordarão. Tenho fé e creio que minha família e meus colegas pastores serão salvos. Por isso, vivo para Ele”, diz o pastor Isaac.

No campo de refugiados

Por causa do genocídio, Isaac não pôde voltar para casa. Em Kigali, ele e outros obreiros ameaçados de morte foram resgatados por soldados rebeldes e levados para o campo de refugiados em uma província da região norte, onde estariam seguros.

Ao chegar ao seu destino, Isaac sentiu a presença de Deus e isso o ajudou muito. Numa sexta-feira à noite, enquanto caminhava pela cidade, perto do campo de refugiados, viu uma igreja católica abandonada. Ele perguntou se haveria problema, caso o local fosse utilizado para realização de cultos. “Não há problema”, foi a resposta. Então, o pastor Isaac voltou ao acampamento e convidou as pessoas a irem à igreja no sábado.

Isaac era o único pastor no campo de refugiados e não tinha tempo para pensar em coisas tristes. Ele descobriu que ocupar-se de algo correto ajuda a esquecer as coisas ruins que aconteceram. Foi dessa forma que sentiu a força que vem de Deus. Continua.