Chamado incontestável – parte 1


Richard nasceu em Casa Blanca, Marrocos, em 1956, ano em que o país obteve independência da França. Ele pertence a uma família judia ortodoxa. Seu avô era um bem-sucedido homem de negócios, no ramo de exportação de especiarias.

Os antepassados de Richard chegaram em Marrocos há quase 500 anos. Antes moravam na Espanha, como judeus sefarditas. Mas em 1492, a rainha da Espanha (Isabel I de Castela) homologou uma lei que obrigava os judeus a se converterem ao catolicismo. Caso contrário, deveriam sair do país. Assim, deixando todas as propriedades, muitos judeus imigraram para Portugal, Países Baixos, Turquia, Marrocos e outros países da África do Norte.

Richard tinha oito anos quando os pais decidiram sair de Marrocos, pois não era seguro para os judeus viver em um país muçulmano. Pouco a pouco, todos os parentes deixaram o país. Alguns foram para o Canadá, outros para Israel, mas o pai de Richard preferiu ficar na França.

A família se mudou para a cidade de Marselha em 1964, mas ali o pai não conseguiu encontrar emprego. Por isso, tiveram que se mudar novamente para Paris, onde seu pai abriu uma loja de roupas masculinas. Começou vendendo camisetas, cuecas e meias, então expandiu o comércio para camisas, pulôveres e, finalmente, ternos. Os negócios progrediram muito e uma segunda loja foi aberta.

A vida em Villejuif

Quando a família se estabeleceu em Paris, as casas eram mais caras que em Marrocos, por isso, foram morar em um subúrbio chamado Villejuif, que significa “Cidade dos Judeus”. Ironicamente, naquela época ali não havia sinagoga, nem escola de rabis, nada que indicasse que fosse uma “cidade dos judeus”.

Aos nove anos, Richard começou a frequentar a escola pública em Villejuif. Ele vivia como judeu, mas, ao mesmo tempo, era muito liberal. Aos onze anos, podia ir a qualquer lugar que quisesse. Tinha liberdade para sair com garotas e fazer o que decidisse. Richard organizava festas com músicas e danças, costumava ir ao cinema e boates. Naquela época, a sociedade era mais segura, e ele não parecia ter medo de nada. Em 1968, houve uma revolução estudantil em Paris. Todas as universidades e escolas foram fechadas. O presidente renunciou. O lema dos revolucionários era liberdade e independência. Isso envolveu toda a sociedade francesa e influenciou seus pais naquele momento.

O lado religioso

O lado religioso também era importante para a família. O pai fazia suas orações nas manhãs, tardes e noites. E o Shabbat era muito respeitado. Nas noites de sexta-feira, Richard devia estar em casa para o início do Shabbat, quando a família fazia o culto em casa com todos os rituais judaicos. Mas a falta de uma sinagoga era um problema.

Eles viviam em uma propriedade que conectava três moradias. Uma era ocupada pelo primo, a segunda pela família de Richard e a terceira por um jovem estudante rabínico, com esposa e filhos. Sendo as três famílias religiosas, juntas elas organizavam os cultos de sábado. Era como uma casa-sinagoga, nas noites de sexta-feira, manhãs de sábado e dias festivos judaicos.

Então, o primo de Richard decidiu ir para Israel, e seu pai pediu permissão à proprietária para transformar a casa do primo em um lugar de oração. Com a permissão concedida, a casa se tornou uma sinagoga. Tiveram até o privilégio de ter uma arca com o pergaminho da Torah. Na jovem mente de Richard, esse lugar era muito santo porque era o único local da vila usado para orar. Para ele, Deus habitava na arca onde estava o pergaminho.

Oração urgente

Certo dia, enquanto brincavam, Richard e seu irmão mais velho fecharam com muita força a porta da casa. Era uma porta especial, de madeira, com um lindo e valioso vitral. Quando a porta foi batida, o vitral espatifou-se no chão.

Richard ficou triste e temeroso, pensando em como seria a reação do pai, de temperamento muito forte. Ele temia que o pai voltasse naquela noite e descobrisse o que havia acontecido.

Então, decidiu ir à sinagoga vizinha, cujas chaves eram guardadas pela família. Ali, ajoelhou-se e começou a orar: “Deus, creio que Tu existes, mas nunca provei Tua existência. Agora, desejo que me mostres que realmente existes. Sabes o que houve em minha casa. Sabes que meu pai facilmente se contraria. Por favor, faze que, quando ele chegar, não fale nada quando vir o vidro quebrado.”

Richard estava certo de que aquela era uma oração impossível. Então, ele esperou até à noite, quando o pai voltaria para casa. Continua.